Fluxo de Domínio do Agronegócio POP/TECH

Se enaltece no Brasil um determinado setor de produção chamado de forma generalista como agronegócio. Falam deste setor como crucial para a economia brasileira e forte no quesito exportação. Porém é um “balaio de gatos” de espécies diferentes e antagônicas. É certo que tem uma forte bancada no Congresso, cerrando fileiras de lutas quase sempre em detrimento da Sociedade, do capital público, do meio ambiente, de comunidades tradicionais e da saúde coletiva. Mas também é certo que dentro deste balaio temos muitas empresas pequenas, médias e grandes dedicadas, que respeitam Leis trabalhistas, empregam e pagam bem seus empregados, mesmo não sendo de produtos naturais ou agroecológicos. Outra classe do agronegócio é a que além de terem ideologias modernas de convivência com a coletividade e seus empregados,  reiteram a mesma ideologia no uso do solo, no respeito aos animais silvestres, às Matas Nativas, mananciais hídricos… São as chamadas empresas orgânicas com forte expressividade nas exportações e muitas dessas até com posição de destaque principal no Mundo. Cumprem essas pequenas, médias e grandes empresas, além das Leis comuns, a Lei 10.831, de 23 de dezembro de 2003 e suas Portarias, Instruções Normativas e Decretos ( https://ciorganicos.com.br/organicos/legislacao-de-organicos/ ). E no Brasil se definiu muito bem com esta Legislação, um forte controle sobre os produtos orgânicos com extensa fiscalização para garantir ao consumidor um produto de qualidade e seguro para sua ingestão. Mas no outro lado do balaio temos um setor que insiste no uso OBSOLETO de agrotóxicos, fertilizantes químicos com base em Nitrogênio, Fosforo e Potássio de síntese e extração mineral. Sem nenhum controle social ou legislativo como ocorre no setor de orgânicos, contaminam e envenenam solos, animais e consumidores de forma gritante. Para estes a Lei é modificada, amputada, desrespeitada, desconstruída. E é deste setor atrasado que se auto intitula TECH ou POP pelos meios pagos de comunicação em TVs e restante de mídias,  que nos fixamos em esquematizar aqui de forma simples e geral.

Quando os indígenas nem sequer imaginavam que teriam suas terras invadidas

O que tem o funcionamento do agronegócio POP/TECH no Brasil a ver com a cognição? Quando os Portugueses aportaram oficialmente nas praias do Brasil, não foram como se pensa, esperados pelos indígenas. Simplesmente porque estes, mesmo vendo as caravelas no horizonte e paradas próximas, não conseguiam as enxergar devido a um simples mecanismo da psique humana descoberto posteriormente por Donald Broadbent ( https://pt.wikipedia.org/wiki/Donald_Broadbent ) em 1958, denominado Cognição. Cognição é um processo complexo que se dá em lapsos de tempo dentro de nosso cérebro, sentidos e consciência, desencadeando ações mediante passos rápidos anteriores em nossa estrutura como a visão, comparação, memória, conexão, conclusão, raciocínio, interação e ação. Ora, os indígenas simplesmente não tinha registrado em suas mentes que poderiam existir imensas canoas, que juntando partes de troncos serrados como tabuas e unidas por pregos ou encaixes, formar uma estrutura imensa, e que tal ainda pudesse boiar. Esta ideia não tinha apoio lógico nas sua mentes. Então diante do desconhecido, mesmo vendo, não conseguiam enxergar. Pior ainda se esta realidade se apresentar de forma exótica, assustadora, temerosa ou violenta. O processo psíquico de negação será mais forte do que a realidade, até para resguardar a própria psique de uma desestabilização irreversível. E os indígenas só puderam saber que “brancos” tinham chegado, quando estes já estavam andando na praia. Então quando identificamos algo, é quando podemos nominá-lo, identificá-lo, significá-lo. E assim ocorre com o movimento de destruição causado por esse setor bem declarado nas suas ações equivocadas, que é este autodenominado agronegócio POP ou TECH que agora vamos nominando e destrinchando.

Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos

A criação do Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (FCCIAT) em 24 de março de 2015, deu-se com objetivo de atender deliberação da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos Fundamentais do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), que propôs aos órgãos dos ramos do Ministério Público Brasileiro (MPF, MPT e MPs Estaduais) a necessidade de ampliar o debate e buscar soluções para o enfrentamento dos impactos dos agrotóxicos e transgênicos na saúde e no meio ambiente. Foram anos trabalhando com mais de 100 entidades públicas, privadas, associações, ONGs, instituições de ensino neste debate, denúncias e busca de soluções. Os trabalhos que o FCCIAT tem se debruçado, são sobre estes problemas pontuais de nossa sociedade e civilização devido a intoxicação coletiva, leis desencontradas; falta de informação vasta dos agricultores e suas famílias e demais atores tanto nos perigos do uso quanto de outras diversas alternativas mais seguras não somente para estes como para seus consumidores e meio ambiente; falta crítica de extensionistas estatais para ajuda-los na lida do campo; falta de fiscais estaduais; falta de estatísticas confiáveis do nível de pessoas atingidas e doenças envolvidas; violência explicita de parte desse setor no campo e no Congresso; tráfico de agrotóxicos contrabandeados das fronteiras; adulteração de fórmulas de adubos e agrotóxicos; contaminação de seres vivos pelo alimento, bebidas e agua; invasão de terras públicas, indígenas, quilombolas… ; aumento da degradação do solo; mudanças climáticas causada por uma agricultura convencional equivocada nas suas práticas; queimadas de matas nativas para a pecuária; trabalho escravo; corrupção de políticos para colocarem e modificarem leis tributárias para favorecerem a indústria do veneno; lobby das multinacionais e até a fragilidade do próprio sistema judiciário.

Diante de tamanha trama de problemas sistêmicos, comecei como Coordenador da Comissão de Regulação do FCCIAT, a mapeá-los e dar nomes para um melhor desencadeamento cognitivo de nossos trabalhos. Encontrei como melhor enquadramento o termo “entretecimento”, para apontar nossos trabalhos no sentido de entrelaçar todas estas partes deste grande problema social, ambiental, jurídico e econômico que são os agrotóxicos e transgênicos na agricultura e pecuária e com isso delimitar suas forças e fraquezas num gráfico.

Segurança Alimentar ou Exportação de Commodities sem regulação racional?

Três fatores básicos para a autocritica extremamente necessária do Agronegócio devem ser ressaltados. No primeiro mais elementar, não conseguirão ir muito longe sem a sociedade onde estão incluídos e a própria Natureza. Não adianta todo o cerco e lobby que fazem no Congresso e no Mercado para se manterem existindo e sugando as energias tanto do Estado como da Natureza inadvertidamente. É já evidente que suas práticas sem regulação e sem lógica agronômica, biológica, ambiental e mesmo econômica está destruindo o seu próprio esquema de comércio. Que o diga a Carta enviada ao Congresso contra a PL 510/21 – chamada PL da Grilagem(tornar escrituras falsas como se fossem antigas, bastando prender grilos numa gaveta com estes papeis) .  Nesta Carta assinada por grandes supermercados e produtores de alimentos britânicos e europeus ameaçam boicotar produtos do Brasil, se esta PL for aprovada ( https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/05/4922331-supermercados-britanicos-e-europeus-ameacam-boicote-ao-brasil-por-desmatamento.html ).

Segundo Fator: falta de visão de futuro na ação presente

É achar que são um poder econômico à parte e sem acordo lógico de expansão e produção com a Sociedade que está inserido e as politicas Públicas do Estado. Podem decidir sem piscar o que é bom para o Estado e a Sociedade no quesito escolha das espécies que vão plantar. Não há permissão de qualquer palpite de planejamento fora de seus círculos. Usam a terra e os mananciais hídricos como se fossem somente deles e não de uma Nação. É sem dúvida mais um tiro no pé do agronegócio por falta completa de visão de futuro!

Grãos Plantados para exportação em detrimento da alimentação interna

Até a China com toda a sua pujança industrial e … poluidora(!!!), entendeu na Estratégia nascida em 2007, que precisa trabalhar com o conceito de “Civilização Ecológica” introduzindo posteriormente na própria Carta do Partido Comunista durante o 18° Congresso Nacional de 2012 e na Constituição de 2018, o “Desenvolvimento Sustentável” em 3 Dimensões: Ambiental/ Econômico/ Social. Percebeu que Segurança Alimentar deve ser prioridade de Politica de Estado! Criou um Plano Nacional de Desenvolvimento Agrícola Sustentável de 2015 até 2030. Um Plano de Combate a Pobreza no Setor Florestal com a ONU. Outro Plano Nacional Especializado em Redução da Pobreza com Água na ênfase da conservação dos Recursos Hídricos em áreas empobrecidas. Muitas dessas Politicas Públicas tiveram sua construção em consonância com organismo internacionais, com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris(2015) sobre Mudanças Climáticas. Fica claro que sabem que seu capitalismo atual será transmutado, mesmo nós sabendo que de lá vem a maior parte dos agrotóxicos sintetizados. Pois a líder mundial de produção de agrotóxicos com sede na Suíça – a Syngenta –  faz parte do grupo ChemChina. Já a Bayer (que comprou a americana Monsanto) alemã, é a segunda nesse pódio, seguida da também alemã Basf (A Alemanha é o segundo maior exportador de agrotóxicos do mundo por conta dessas duas empresa). As 3 juntas dominam mais de 60% do mercado mundial. E o Brasil com sua fraca Legislação Sanitária é seu maior consumidor, mesmo muitos desses agrotóxicos sendo proibidos de comercialização na Europa.

terceiro fator: arrogância, violência e destruição da imagem no exterior

A humildade é algo completamente diferente do que faz transparecer na aparência dos que sabem a ter. Ela trás maturidade e capacidade de adaptação e poder de escutar e entender seu meio e principalmente aos outros, mesmo que sejam animais, plantas, rios… Algo próximo fez o Presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABA) de nome Marcello Brito – com 7 Associações que a compõem. Assinaram um manifesto pedindo mais moderação nas falas do governo. O presidente da ABA ratificou publicamente em entrevista ( https://www.youtube.com/watch?v=hW3_Ybn5fLs ) a retirada implícita da violência contra a Natureza, respeito ao futuro do Brasil, atenção a 100 milhões de brasileiros sofrendo insegurança alimentar, 15 milhões de desempregados, desigualdade social crescente e que a imagem do Brasil é a pior possível, tirando diversas empresas grandes do mercado europeu. Acrescenta que a Amazônia é maior que o Brasil, e desmatamento, queimadas, retira constantemente compradores de nossos produtos agrícolas. É tal manifestação não é pouca não! Esta Associação responde por mais de 50% do PIB do agronegócio.  Estão constantemente monitorando o mercado internacional e sabem que 60% da classe média consumidora futura estará na Ásia, mesmo que o hábito seja ditado ainda pelos mercados europeus e estadunidense, tem a consciência que classe média tem tempo de ver notícias e ler sobre o que se passa na Amazônia. Diz finalmente que o tempo da omissão passou e será cobrada essa irresponsabilidade. Só não pôde esclarecer ou não quis mexer em vespeiros, que exatamente este caos muito se deve a Frente Parlamentar do Agronegócio que vota firme com o governo de Bolsonaro. Faz destes integrantes do “CENTRAO” sua arma literal de manutenção deste caos. Sem falar do Instituto Pensar Agro (IPA) que reúne estes parlamentares em almoços festivos em mansão de Brasília para este circuito de lobby e financiamento pesado de muitas das grandes empresas do setor do próprio Agronegócio. Que é o que referimos como POP/TECH.

O Fluxo de Domínio num gráfico

Olhando para o gráfico desta matéria podemos então significar todo esse caos numa entranha lógica visível e compreensível que mostra que não é somente aleatório mas organizacional. Com isso nos tira um pouco da pueril vista de que os fenômenos são espontâneos. Nunca foram, assim como a revolução verde ( https://www.ecodebate.com.br/2018/04/10/impactos-da-revolucao-verde-parte-12-artigo-de-roberto-naime/ ) nunca o foi ! Vemos que existem atores e objetos passivos que são a população, órgãos públicos e a Natureza. São os agentes ativos é que são os verdadeiros combustíveis dessa engrenagem, e estão todos bem visíveis nos movimentos. Agrotóxicos e transgênicos são um problema sistêmico, mas que não devem ser olhados como foco ou principal e sim como ferramenta para todo um funcionamento complexo desse sistema. Algo como o diferencial de um carro, a marcha que dá o tom do motor. São os agentes, o combustível e as engrenagens que devem ser muito mais focados; e com “politicas públicas” e “estratégia de governança e Estado” serem neutralizadas, domadas e direcionadas para um fim justo, social, econômico para a Nação e não como ocorre para uma fração ínfima de 1% da sociedade ou somente aos 10% da economia deste setor. Noutra postagem escreveremos mais das soluções em cima deste gráfico e os focos mais importantes para esta ação.

Autor: Geraldo Silva Jardim

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